Carrego no bolso da Alma, muitos óculos de muitas lentes de muitas cores, em que as troco conforme as conveniências do coração.
Quando ele se incomoda, engana, amarga, fere, sofre ou sangra, são as de vidro turvo com que sei das paisagens e dos reflexos de dentro.
E quando coração voa, dança, cria, ama e amém, mudam-se as lentes também. Vejo a vida conforme as cores que carrego e as marés de mim.
Houve épocas em que me acostumei com os tons de cinza, e em outras só via cor-de-rosa, ainda que nos meus óculos
coubessem todas as cores do infinito.
Já sofreu minha Alma de miopia séria, ao distorcer os laços, retorcer os fatos, inverter as falas e interpretar o sentido de
coisas que nem sentido tem.
A miopia engana a distância dos corpos e confunde os sentimentos.
Guardo sem querer guardar, lentes que diminuem doçuras e apequenam sutilezas, e outras que aumentam e exageram os problemas, criando monstros e cultivando medos, encontrando agulhas no palheiro, pelo em ovo, transformando garoa em tempestade, ouro em chumbo, dia em noite, trilha em muro de qualquer coisa que vejo.
E com o desgaste das cores que levo, reinam a sombra e a cegueira - em maior ou menor grau - no coração que não mais enxerga o amanhã e não entende as promessas, não busca o inteiro e se contenta com qualquer coisa, renega o Amor e não mais sabe da Vida.
Às vezes basta um só raio de sol na janela da Alma pra amanhecer esperança no jardim de amores e fazer do azul do céu, nosso telhado; mas na repetição dos dias de límpidas ilusões e verdades confusas, coração quando cansa a vista, adormece.
Fotografia: Bruna dos Anjos